Jisei
5-7-5, não o contrário.
Bêbado, aos esses vou Olho; em cima Ainda assim há estrelas
Os japoneses escreviam poemas de morte. Imagine-se, espíritos completamente descarnados por causa da dor, e ainda assim a contar sílabas. A maioria fazia-o, pelo que percebi da minha amostra, antes de espetar uma faca (vulgo katana) no bucho — o que, não me interpretem mal, me parece muito respeitável e até bastante admirável. Mas explica-se então que tivessem paciência para contar as sílabas, porque a quem vai meter meter uma espada na barriga não falta tempo (muito paradoxalmente; o tempo não está reservado para nada, é se calhar mais preciso). Desse estado de espírito, que não sei nada (mas se a coisa é assim hoje em dia, imagine-se quando não havia água canalizada nem sabão), imagino que o contemporâneo mais próximo seja estar com uma grande bebedeira. É excelente; não só pelas razões sabidas que são inerentes à experiência e que a maior parte de nós conhece, mas porque é das poucas coisas que se pode fazer para abafar o auto-instinto de preservação. Uma chatice, o curto-circuito que faz travar o passo quando um carro se aproxima em velocidade de uma passadeira. (A partir daqui é preciso ser indirecto para não ferir sensibilidades.) Não será à toa que os homens desesperados ou desencaminhados têm risco de alcoolismo. Estivéssemos todos alerta e de olhos abertos, bem cientes, estou convencido de que não se encontraria um único transeunte sóbrio, em vez dos desgraçados que andam aí a correr a altas horas de ar suado e esmifrados de licra. Mas a sociedade, como animal colectivo, sabe precaver-se contra este mal, e por isso estar só na rua com uma garrafa do seu álcool preferido atrai olhares e um sentido de vergonha (não precisa de ser uma garrafa especificamente, é bom de ver, qualquer contentor estanque serve). Por isso mesmo, num filme, se via uma mulher a beber vodka numa garrafinha de água, daquelas da moda e péssimas para o ambiente, ainda que digam o contrário. Não entendi completamente a significância desse detalhe ao ver passivamente o filme. Tudo isto para dizer que contar as sílabas de antemão, e mais, fazê-lo bêbado, é uma óptima acção preventiva, e muito adequada, como se comprova. Cumprimentos calorosos.
